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Doença Celíaca e psicologia: muito além da alimentação
Por Cláudia Cruz, celíaca e psicóloga

Texto de Tatjane Garcia

Os sintomas mais comuns e facilmente reconhecidos como indicativos da doença celíaca (DC) são os problemas gastrointestinais, dores abdominais e articulares. Mas nos últimos anos tem se revelado que a DC apresenta uma variedade de sintomas que envolvem outros aspectos que vão além do  sistema digestivo.

Quando o diagnóstico da intolerância ou alergia ao glúten é confirmado, imediatamente é recomendada uma dieta livre de glúten. Essa descoberta pode ocasionar um impacto muito grande, levando também a reações psicológicas, que podem causar desequilíbrio à saúde mental, pois a doença celíaca muda desde os processos de pensamento às formas de relacionamento, passando é claro por uma severa mudança de hábitos alimentares. Porém, a retirada imediata do glúten da vida do celíaco não precisa significar a sua exclusão da sociedade. Por isso, a ajuda de um psicólogo que entenda a realidade da DC pode ser muito importante, principalmente, no início do tratamento.

Para auxiliar a pessoa com a celíaca, principalmente no momento da transição para uma vida sem glúten, o site da Célia Celíaca convidou a psicóloga Cláudia Cruz**, que também é celíaca, para tirar algumas dúvidas que acreditamos ser comuns aos celíacos e às pessoas que convivem conosco.

Sabemos que saúde mental é uma combinação do equilíbrio de competências cognitivas, emocionais e comportamentais que levam ao bem-estar. Então, se algum desses fatores estiver em desarmonia, poderá afetar um ou todos os outros. Segundo a Dra. Cláudia, a celíaca pode se manifestar por meio de problemas psicológicos e neurológicos, para ela: “a doença celíaca, por ser autoimune, pode apresentar sintomas sistêmicos, incluindo as comorbidades neurológicas (ataxia, degeneração cerebelar, neuropatia, convulsão, esclerose múltipla, enxaqueca), psicológicas e psiquiátricas (esquizofrenia), sendo que em alguns casos esses sintomas ou doenças podem ser a primeira manifestação da DC”.

Por isso lembre-se: você não está sozinho! Entre no site, além de entrevistas e dicas de especialistas, vai encontrar sempre uma tirinha da Célia tirando onda da Celíaca  para enfrentar a situação com muito bom humor. Segue, abaixo, a entrevista exclusiva da Dra. Claúdia Cruz para o site da Célia com dicas de como identificar sintomas psicológicos relacionados à doença celíaca e de que forma um psicólogo pode apoiar no pós-diagnóstico.

 

1- Quais problemas psicológicos que os indivíduos com doença celíaca mais apresentam?

Normalmente celíacos apresentam quadros de depressão, ansiedade, irritabilidade, síndrome do pânico e hiperatividade, que se não tratados de maneira adequada, principalmente por meio de dieta sem glúten e sem contaminação, podem desencadear sintomas e doenças ainda mais complicados, inclusive gerando transtornos psiquiátricos graves.

 

2- Como o psicólogo pode ajudar no pós-diagnóstico de um paciente celíaco, alérgico ou intolerante ao glúten?

Principalmente em dois aspectos. O primeiro é na adesão à dieta e aceitação do diagnóstico, não apenas do celíaco, mas também por parte de sua família. Esses processos nem sempre são fáceis e rápidos, e precisam de atenção, pois a dieta é a única possibilidade de melhora e estabilização da doença. Em segundo lugar auxiliando a lidar e resolver possíveis sintomas e transtornos desencadeados pela DC.

 

3- Qual a importância de um psicólogo conhecer a celíaca e outras desordens relacionadas ao glúten?

Considero de extrema importância conhecer aspectos relacionados à doença e sintomas por ela desencadeados. Neste caso o profissional terá maior domínio sobre os impactos da doença, as mudanças que ocorrerão na vida do paciente, bem como ampliará a compreensão sobre a relação entre os sintomas psíquicos e aspectos orgânicos da doença.

 

4- Todo psicólogo está apto a acompanhar um celíaco, alérgico ou intolerante ou e é preciso buscar quem já pesquisa sobre o assunto?

A formação em Psicologia no Brasil é bastante generalista, após a formação cabe ao psicólogo buscar especialização na área em que deseja atuar. Nos casos da DC psicólogos que atuam na clínica ou na área de saúde são os mais indicados. O primeiro irá atuar em aspectos mais específicos e individuais e/ou familiares, enquanto o psicólogo da saúde irá contribuir para que o celíaco busque criar estratégias mais amplas para o enfrentamento da doença e promoção da saúde, mesmo após o diagnóstico. A doença celíaca é pouco ou nada abordada na graduação em Psicologia, por isso ao buscar um profissional o celíaco deve primeiro procurar saber se ele é habilitado para atuar como psicólogo, se tem inscrição no Conselho de Psicologia. Caso o psicólogo habilitado não tenha conhecimento sobre DC, saberá buscar as informações necessárias para o atendimento adequado ao paciente.

 

5- Quais os impactos psicossociais gerados quando uma pessoa precisa mudar seus hábitos alimentares?

O alimento é usado em nossa cultura como forma de interação, compartilhamento e até de identidade cultural e familiar. Ao mudar os hábitos e, mais do que isso, precisar adequar-se e afastar-se de espaços que possam causar riscos à saúde, os celíacos muitas vezes isolam-se ou são isolados de grupos e reuniões familiares e de amigos que envolvam alimentos. Esses aspectos podem levar à dificuldade de aderir à dieta isenta de glúten, comprometer a aceitação do diagnóstico, e com isso gerar ainda mais danos à saúde física e psíquica dos celíacos.

 

6- Por que é tão difícil para algumas famílias aceitarem e compreenderem a dieta isenta de glúten e os cuidados com a contaminação cruzada?

As famílias são bastante heterogêneas e normalmente as pessoas tendem a ser resistentes ao desconhecido, como é o caso da doença celíaca. Além disso as pessoas não compreendem os cuidados necessários nos casos de doenças imunomediadas ou autoimunes.

 

7- Qual deve ser o posicionamento de um celíaco mediante família que não compreende?

O celíaco deve contribuir para que a família conheça mais sobre a doença, pois o conhecimento é uma ferramenta potente para que parentes e amigos compreendam o dano que “um pedacinho” de alimento com glúten causa. Dar visibilidade à doença, seus sintomas, os alimentos que contêm glúten, à contaminação, e ao fato de que a dieta 100% isenta de glúten e contaminação é a única possibilidade de uma vida saudável.

 

 

 

 

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