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Doença Celíaca e Adolescência
Com Dra. Camila Cicco

A doença celíaca pode surgir em qualquer fase da vida, incluindo a adolescência.
A adolescência é uma fase delicada, quando ocorrem mudanças comportamentais, físicas e psicológicas. Passar da puberdade para a juventude exige grande energia do jovem. E se a doença celíaca surgir é preciso adaptar-se para tornar a vida mais leve.
Nessa conversa com a médica gastroenterologista, Dra. Camila Cicco, que atende pacientes adolescentes, buscamos esclarecer algumas questões que preocupam pais e professores.

1- Porque é complicado o diagnóstico na adolescência?
Na fase da adolescência, o diagnóstico de doença celíaca se torna mais complicado pelo fato de que muitas crianças passam a não informar aos pais sobre o que está acontecendo. Dificilmente mostram as fezes no vaso sanitário ou comentam se estão com diarreia, por exemplo.
O adolescente muitas vezes ignora sintomas extraintestinais, como artralgia (dor articular) e cefaléia (dor de cabeça) e acaba convivendo com eles sem buscar apoio médico ou mesmo dos pais.
Na 1ª infância, a dificuldade de comunicação não ocorre, pois a criança chora e se queixa, alertando a família de que não está bem. Os sinais gastrointestinais ficam mais visíveis quando os pais trocam as crianças, avaliam o aspecto das fezes e se há, ou não, distensão abdominal. Os pais das crianças pequenas costumam buscar ajuda profissional assim que percebem as alterações.

2- Quais são os sintomas mais frequentes da DC na adolescência?
Estudos mostram que, em crianças menores, o principal sintoma gastrointestinal é a diarreia; enquanto em crianças maiores e adolescentes, é a dor abdominal.
*Por essa dor ser difusa, muitas vezes, o diagnóstico em meninas é confundido com cólicas pré-menstruais.
Nas crianças menores, os sintomas extraintestinais mais frequentes, são: a baixa estatura e a “failure to thrive” (ganho insuficiente de peso).
Nos adolescentes, os sintomas de cefaléia e fadiga, por serem muito inespecíficos, terminam associados a outros fatores, como: estresse, exposição a computadores e telas ou tensão pré-menstrual. Estas são as suspeitas mais comuns, o que torna rara a hipótese de DC e atrasa a investigação diagnóstica.

3- Qual o seu maior desafio em ter um paciente adolescente?
Adesão à dieta é certamente o maior desafio. Diferente da criança menor, o adolescente toma as próprias decisões e pode simplesmente se recusar a seguir as minhas orientações.
Quando explico as restrições para a criança de 3 ou 4 anos, por exemplo, a família inteira passa a segui-las. “O glúten não entra mais em casa!” – muitos pais referem. Preparam as lancheiras e ensinam as professoras a vigiarem os filhos, nas refeições da escola. Certamente isso não ocorre com um adolescente. Aos 14, 15 anos, eles já saem para comer sozinhos ou com amigos; sentam-se em turma no refeitório da escola e, infelizmente, muitos se sentem constrangidos por levar marmitas com seus lanches próprios. Torna-se, por isso, muito difícil a garantia de que não transgrida a dieta.

4- Quais as transgressões mais frequentes nessa fase?
Como citei anteriormente, alguns sintomas nessa idade são inespecíficos: cefaléia, artralgia e fadiga. Então, quando os sintomas são mais leves, o paciente, algumas vezes, acredita que “só um pouquinho” de glúten não faz mal e acaba transgredindo a dieta. Muitas vezes, o faz até por provocações de colegas que não têm informações sobre a doença. Além disso, nessa fase, os adolescentes começam a frequentar festas sem a presença dos pais e ficam expostos a salgadinhos, lanches e, até mesmo, bebidas alcóolicas à base de trigo. O risco é muito grande!
No Brasil, não temos muitos restaurantes ou estabelecimentos próprios para celíacos, dificultando o acesso dos jovens a ambientes seguros. Certamente, se houvesse mais opções, facilitaria a socialização e adesão ao tratamento.

5- Qual seu conselho para mães e pais de celíacos? Como eles podem proceder? Qual o papel do médico?
O adolescente está passando por uma fase de mudanças comportamentais, físicas e psicológicas. Então, não adianta simplesmente o médico dar o diagnóstico e falar: “- Não coma mais glúten!” O tratamento vai muito além. Nosso papel é dar todo o suporte possível.
Meu primeiro conselho aos pais é não procurar nada na internet antes de fecharmos o diagnóstico. Tive casos em que a família se antecipou e suspendeu por conta o glúten da dieta, antes das biópsias intestinais.
O segundo conselho é sobre empresas e sites seguros. Quando fecho o diagnóstico forneço aos pais uma lista de endereços confiáveis, tanto para informação online, quanto para compra de alimentos seguros.
Mas meu maior conselho aos pais é a PARTICIPAÇÃO. Oriento que haja uma mudança na rotina alimentar da família. Fica muito difícil para o adolescente seguir uma dieta isenta, em um ambiente repleto de alimentos com glúten.
Quando a casa toda começa a fazer a mesma alimentação do paciente, ele a aceita melhor, sente-se apoiado e corre menos riscos de transgressões.
Costumo convocar também avós e irmãos nas consultas e explico exatamente o que é a Doença Celíaca. Oriento que as falhas na dieta não causam anafilaxia como nas alergias, mas que são tão graves quanto, ou ainda mais graves, justamente por serem agressões não tão visíveis. Devemos contar com a colaboração de todos.
Clinicamente, nós médicos, também devemos manter o seguimento laboratorial com dosagens de vitaminas e minerais, que são essenciais nessa fase, devido ao crescimento acelerado e que na DC correm o risco de estarem em deficiência. Devemos comemorar cada evolução clínica do paciente. O estímulo e o reconhecimento de seus esforços são as melhores garantias de um bom tratamento.

6- Sabemos que uma grande dificuldade é a social: amigos e escola. O médico pode ajudar? De que forma?
Sim, nós médicos podemos e devemos ajudar.
Primeiramente podemos escrever um breve informativo para a escola, elucidando o que é a doença e sugerindo adaptações para que a criança ou adolescente não se sinta deslocado no ambiente escolar.
Algumas escolas separam o aluno com dieta especial, dos amigos, na hora do intervalo e levam-no para comer sob supervisão, na sala da diretoria ou na copa. O objetivo dessas medidas é evitar a contaminação cruzada e a troca de alimentos entre ele e os colegas. Apesar de ser compreensível, é uma medida que isola o adolescente e prejudica a socialização. Muitos se sentem envergonhados e optam por não comer na escola.
Costumo sugerir que o paciente eleja dois amigos “anjos da guarda”, que o acompanharão, durante refeições, para que não se sinta isolado.
Outro papel do médico é atender aos sinais de depressão que podem surgir após o diagnóstico. Observar mudanças de comportamento da criança, buscar ajuda multiprofissional e incentivar o acompanhamento psicológico do paciente e se possível da família.
Infelizmente não podemos vigiar os pacientes o tempo todo. Então, cabe a nós, pediatras a conscientização sobre a doença e seus riscos. Só conseguiremos um bom resultado se adquirirmos, além de uma boa relação médico-paciente, uma relação de confiança com nossos adolescentes celíacos.

 

A Dra. Camila está no app da Célia!!!

Revisão: Marilza Conceição.

 

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