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CONTAMINAÇÃO CRUZADA POR GLÚTEN NA INDÚSTRIA BRASILEIRA
Saiba quais os riscos e como proteger os celíacos

Por Tatjane Garcia

 

Mariane Rovedo é nutricionista especialista em doença celíaca, na qual apresentou sintomas em 2009, ainda na faculdade, fazendo com que estudasse bastante sobre o assunto para assim poder cuidar da sua saúde. Diante de um quadro de risco com ajuda pessoal da Fenacelbra (Federação dos celíacos do Brasil) e de amigos de grupos de celíacos de redes sociais buscou um diagnóstico conclusivo para o seu caso, até que conseguiu o veredito como celíaca.

Desde então tudo mudou em sua vida, depois sua formação e recuperação completa de sua saúde, percebendo assim, o quanto era importante estudar mais sobre doença celíaca para também ajudar outras pessoas que passavam pela mesma situação. Hoje atua como nutricionista na clínica Costa Claro, trabalhando com Dr. Paulo C. Claro, referência no estado do Paraná em doença celíaca.

Hoje  sou uma nutricionista militante da causa, além dos atendimentos clínicos, dou palestras e faço questão de ensinar e falar para a população sobre a doença celíaca, também sou consultora técnica da Fenacelbra e espero deixar um legado da minha experiência clínica e pessoal.”, relata Mariane Rovedo.

 

Sobre a doença celíaca:

 

  1. Desordens relacionadas ao glúten e cuidados.

Mariane enfatiza que “a doença celíaca é uma doença autoimune que acontece em pacientes geneticamente predispostos e se não for tratada corretamente pode afetar qualquer sistema do organismo.”. O fato da DC possuir  inúmeros sinais e sintomas, ainda dificulta o diagnóstico e muitas vezes  confunde os médicos de diversas especialidades por não estarem habituados a lidar com a DC. Segundo a nutricionista, “hoje sabemos que não existe um padrão rígido, que cada celíaco é único com seu conjunto de sinais e sintomas podendo apresentar vários deles ou até mesmo ser assintomático.”

Cada vez mais se entende que esta singularidade deve ser observada e tratada com respeito pelos profissionais da área de saúde. De acordo com Mariane “É muito importante que em qualquer suspeita de alguma desordem relacionada ao glúten, seja ela qual for, (doença celíaca, alergia ao trigo ou sensibilidade não celíaca), que o glúten não seja excluído antes de se fazer todos os exames para diagnosticar ou descartar doença celíaca”. A exclusão prévia do glúten pode mascarar os exames e dar um falso negativo e o indivíduo pode adoecer gravemente se não tiver um diagnóstico correto. Vários pacientes ou pessoas que convivem com um celíaco tem dúvidas sobre o tratamento da doença. Nesse sentido, Mariane esclarece que “o único tratamento para doença celíaca é uma dieta livre de glúten e livre de contaminação cruzada pela vida toda, e isso também implica em fazer boas escolhas com alimentos seguros.

 

  1. Contaminação cruzada.

Há dúvidas também em relação à contaminação cruzada, mas cresce o número de pesquisas nesta área como mostrou Mariane no Congresso Internacional de Nutrição Especializada e Expo Sem Glúten – COINE, em maio de 2018. A nutricionista já esteve no COINE como ouvinte e nos conta que participar como palestrante foi um desafio. Ela acredita que a repercussão de seu trabalho foi muito boa, e relata que  ouviu celíacos lhe dizerem que se sentiram representados por ela esclarecer as dificuldades de encontrar produtos industrializados seguros.  Houve identificação do público, de acordo com Mariane por “ter apresentado a palestra com uma fala não somente profissional, mas como celíaca também e de quem vive o outro lado da moeda e sente os danos da contaminação cruzada na pele.

 

  1. Pesquisa na indústria brasileira e motivação.

Questionada pelo motivo de sua pesquisa na indústria brasileira, Mariane responde que a motivação foi através da experiência prática no consultório, onde observou que pacientes celíacos tendem a ter um alto consumo de produtos industrializados e não melhoravam apenas cuidando com a contaminação cruzada em casa. Quando estabelecia uma dieta livre de glúten preconizando uma alimentação natural e com boa redução de industrializados, passou a notar incrível diferença e melhora desses pacientes comprovadamente através de exames. “Através dessa observação passei a estudar mais sobre todas as possíveis fontes de contaminação no processo industrial e são muitas as variáveis que podem favorecer o risco de contaminação cruzada na indústria. Isso é um caso de saúde pública e precisa ser divulgado para que padrões mais rígidos de segurança alimentar sejam estabelecidos na indústria.”, enfatiza a nutricionista.

 

  1. Conscientização dos celíacos sobre risco da contaminação cruzada.

Mariane diz que os alimentos têm muito a ver com um lado afetivo. “As pessoas são ensinadas a viver emocionalmente e socialmente em torno de alimentos, normalmente com glúten. Inicialmente passam por uma fase de negação da doença e preconceitos de amigos e familiares que não acreditam que “um pouquinho de glúten” fará mal e também contribuem para essa dificuldade de conscientização.” Para a nutricionista é preciso fazer um trabalho muito didático, psicológico e orientador sobre contaminação cruzada com os celíacos. Traços já afetam e podem adoecer gravemente. Somente dessa maneira o sistema imunológico estará protegido.

 

  1. As indústrias.

Na indústria de alimentos no Brasil encontra-se todos os tipos de produtores, gente consciente e do bem, e alguns que por ignorância ou oportunismo não fazem as coisas tão certas. Mariane diz que é preciso estar alerta e também precisa-se de apoio através de leis mais rígidas e da vigilância sanitária. “Ainda tem muitas industrias que estão abertas sim, que até querem fazer tudo certo, estabelecem normas, porém esbarram na dificuldade de encontrar matéria prima limpa. É um processo também de muita conscientização e responsabilidade e que envolve toda a cadeia de produção que deve ser pensada desde a agricultura até a mesa.”

 

  1. Etapas e riscos de contaminação.

Os riscos de contaminação cruzada na indústria são em diversos processos. A matéria prima limpa é fundamental para todos os demais processos de produção. Na agricultura esbarra na contaminação através de plantio alternado e que deixa resíduo no solo de grãos tóxicos para os celíacos, ou no transporte, silos e armazenamentos compartilhados com diversos cereais.

Na fase da indústria, algumas empresas são multicerealistas e insistem em fazer limpeza de maquinários, o que nem sempre é eficiente. Essas deveriam apresentar laudos lote a lote para oferecer segurança, mas por ser oneroso não o fazem. Há também contaminação por risco humano de funcionários, ao comerem alimentos com glúten em uma empresa destinada a fazer alimentos sem glúten.

De acordo com a nutricionista, ainda encontramos rotulagem errada, um erro grave que coloca em risco a saúde dos celíacos. “O modelo ideal para a produção de um alimento sem glúten é que toda cadeia de alimentos seja rastreada, isenta de glúten e que a fábrica que produza esse alimento tenha espaços distintos de fabricação completamente isentos de glúten. Esse sim é o modelo que os celíacos necessitam de alimentos industrializados.”

 

  1. Fiscalização das indústrias.

Não temos leis especificas para contaminação cruzada por glúten para os celíacos, por isso as indústrias não tem obrigatoriedade de laudar com periodicidade, o que deixa o celíaco em uma situação de vulnerabilidade. “Por esse motivo preconizo uma alimentação consciente com menos industrializados e, os que forem consumidos, os celíacos devem entrar em contato com as empresas para conhecerem o processo de produção e minimizar riscos.”, acrescenta Marine.

 

  1. Leis no Brasil.

LEI FEDERAL Nº 10.674, DE 16 DE MAIO DE 2003 (BRASIL, 2003) – determina que todos os produtos alimentícios devem informar a presença de glúten ou não em sua rotulagem, com as inscrições (contém ou não contém glúten).

CÓDEX ALIMENTARIUS (2008) – o Brasil é signatário e determina que alimentos com teor abaixo de 20 PPM de glúten podem ser rotulados com inscrição: “Não contém glúten”.

RESOLUÇÃO ANVISA-RDC Nº 26, DE 02 DE JULHO DE 2015 – para alérgicos e não é especifica para celíacos, mas como contempla trigo, aveia, centeio e cevada ajuda a proteger pela contaminação cruzada com glúten.

Mariane reforça que nos casos em que não for possível garantir a ausência de contaminação cruzada dos alimentos, ingredientes, aditivos alimentares ou coadjuvantes de tecnologia por alérgenos alimentares, deve constar no rótulo a declaração: “Alérgicos: Pode conter: Trigo, aveia, centeio, cevada ou outros alérgenos”

 

  1. PPM (parte por milhão) para proteger a população celíaca.

Na verdade essa determinação é muito complexa de ser estabelecida e vem sendo discutida em diversos países. “Para se ter uma determinação exata, dependeria muito de fazer pesquisas em humanos com grupos de celíacos ingerindo glúten por longo prazo, o que é muito arriscado pelo fato de poderem desenvolver serias doenças nessa fase da pesquisa, por isso os estudos nessa área são escassos, dependeria de um comitê de bioética muito difícil de ser aprovado.” Mariane ainda acrescenta que diante dessa situação, os países vêm discutindo se utilizam como parâmetro o codex alimentarius que determina 20PPM de glúten ou uma tendência mundial de estabelecer níveis mais seguros de 10PPM, porque já sabemos que alguns celíacos fazem reações a quantidades ínfimas de glúten.

“O Brasil ainda não tem uma lei que determine quantidade de traços de glúten para celíacos, mas a Federação dos celíacos do Brasil solicita diante de uma consulta pública que níveis baixos de 10ppm sejam estabelecidos no Brasil, esperamos que essa conquista seja breve.”

 

  1. Sugestões da pesquisa.

Mariane Rovedo orienta com algumas dicas sobre a pesquisa:

  • Preconizar alimentação mais natural possível e equilibrada, não precisamos de tantos farináceos na alimentação.
  • Entrar sempre em contato com as empresas para saber se o processo de fabricação é em área totalmente livre de glúten.
  • Não consumirem tantos produtos e marcas diferentes, pois quando ocorre uma contaminação se o indivíduoconsome inúmeras farinhas fica difícil de saber qual é a que tem resíduos tóxicos, nesse caso é melhor consumir poucas e de marcas confiáveis.

A nutricionista espera que a saúde de muitos celíacos seja rapidamente reestabelecida através de uma alimentação mais natural, equilibrada e saudável. “Que as empresas que se dispõem a produzirem alimentos sem glúten sejam cada vez mais conscientes dos riscos para tentar corrigi-los e que possam oferecer alimentos realmente seguros”, conclui a pesquisadora.

 

Mariane Rovedo é nutricionista na clínica Costa Claro, pós-graduanda em Nutrição Clínica Funcional – VP e consultora técnica da Fenacelbra (Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil)

 

Tatjane Garcia é mestre em Literatura pela UFPR, atua como assessora de imprensa, produtora cultural e como assistente de comunicação da Célia Celíaca.

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